“O bom cego”

15/08/16
Por: Leonardo Santos Magalhães

Em nossos ensaios anteriores, procuramos colocar luz à alguns aspectos estratégicos e de gestão a fim de ajudar nossa comunidade a reconhecê-los e, assim, buscarem melhorias em suas organizações. Sabemos que por vezes geramos mais dúvidas que certezas, o que pode ser bom, caso enxerguemos como Sócrates que pode ter dito algo como: “Só sei que nada sei, sabendo que nada sei, sei mais do que quem não sabe que nada sabe. ”

Alguns contestam que Sócrates tenha dito esta frase desta maneira, mas parece haver certa concordância de que seu “conteúdo” é associado ao filósofo grego. Dizem ainda que esta frase, ou em alguma de suas outras versões, tenha sido proferida quando a sacerdotisa Pítia do templo de Apolo, em Delfos, o indagou no Oráculo de Delfos sobre se era o homem mais sábio da Grécia.

Podemos pensar na contraposição de dois conhecimentos, aquele que chega através da certeza ou através da crença justificada. Sócrates se considerava ignorante porque não ter certezas, o que não significa que não sabia de nada. Em sua maneira de viver, assumir sua ignorância seria melhor do que falar sem saber. Quem não se vê ignorante não se dispõe a aprender mais, enquanto os sábios sempre reconhecem suas limitações e buscam o aprendizado e melhoria constantes sobre seu saber.

Da mesma forma, a capacidade de enxergar toda a complexidade interna e externa que envolve as organizações aumenta cada vez que entendemos o quão cego nós somos. A história do pensamento e da criação de métodos científicos, técnicos e gerenciais buscaram alguma elucidação, e nisso se desenvolveram e continuam a se desenvolver. À primeira vista sentimos alguma vertigem ou certo deslumbramento com esta paisagem. Com o passar do tempo aparece a contemplação das incertezas e com calma continuamos a busca por soluções. O Cego pode assim continuar, ou começar a utilizar-se de outros sentidos. As organizações podem permanecer míopes, ou buscar por novas formas de enxergar seus problemas. Temos nos processos gerenciais a oportunidade de, através do método científico, capacitar as organizações a perceberem as diversas nuances, texturas e sutilezas dos ambientes internos e externos.

Tirando algumas exceções fora da curva, empresários e governantes iniciam sua busca reconhecendo seus clientes e solucionando suas demandas. Percebem neste trajeto que, para desempenhar bem esta atividade, precisam entender também o mercado, as condições externas do ambiente que o qual irão desenvolver suas soluções.  Utilizar-se de estudos de mercado para análise e reconhecimento de seu contexto é uma das primeiras competências importantes a serem internalizadas, pois aumenta muito a capacidade de enxergar e entender seus usuários, concorrentes, parceiros, o mercado e seus atores.

Durante esta capacitação e desenvolvimento, os gestores se deparam com a necessidade de gerenciar a inovação desde o nível estratégico e daí percebem a importância de gerenciar competências, desde acionistas até operários, passando pela alta administração, gerência, etc. Assim vão incorporando as incertezas do conhecer. A gestão de processos e de projetos aparecem com outros métodos científicos a serem utilizados para gerenciar as finanças, os investimentos, a satisfação dos clientes, etc. Cada dia que passa mais veem o quanto tem ainda para conhecer.

Interessante observar que as histórias dos gestores se confundem sempre na busca pelo gerenciamento efetivo. As perguntas de um são as mesmas de outro. As respostas serão as mesmas também para uns, mas muito distintas para outros. Com interesses distintos e confidencialidade nas estratégias competitivas e ações produtivas, cada um deve se fazer sob medida ao seu mercado e clientela. Não existem clientes ou problemas iguais, não há certezas, mas métodos de pesquisa e desenvolvimento que são mais adequados para uma ou outra situação de miopia. As incertezas são guia constante para a luz.

Não importa, portanto, se você enxerga tudo, mas se você enxerga mais do que quem não vê que nada enxerga. Seja assim, um bom cego, inove e sustente.

 

 

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